"Porque um dia é preciso parar de sonhar,
tirar os sonhos da gaveta e de algum modo partir"
Amyr Klink

Saída 30/04/2007
Blumenau, Navegantes, São Paulo, Madri

Sai de Blumenau-SC as 06:00hrs com meus pais e minha namorada de carro até o Aeroporto de Navegantes, que fica a uns 50kms de Blumenau, la estavam um casal de amigos dos meus pais que foram desejar uma boa viagem. Entrei no avião e ao meu lado sentou uma mulher que estava ao telefone com alguém e disse que precisava desligar pois embarcaria pra Espanha. Quando ela desligou falei que também estava no voo pra Espanha, após uma longa conversa, chegamos as 10:20hrs em Congonhas.
AviaumVoo (Clique nas fotos para ampliar)
Peguei o taxi até Guarulhos com essa moça, pois ela estava a trabalho e a empresa pagou o taxi, e as 15:30hrs ja estava sentado no avião da Ibéria com destino a Madri numa viagem de 11 horas bem cansativa, pois o tempo não passa e o desconforto é muito grande.

01/05/2007
Madri->Pamplona

Cheguei no aeroporto de Madri as 06:00, um aeroporto muito bonito e bem grande, não consegui dormir no avião, muito apertado e desconfortável. Encontrei 3 brasileiras que estavam na Espanha para fazer o caminho, a Fátima, a Lu e a Sandra.
CAMINHO DE SANTIAGO Aeroporto de Madri
As 10:00hrs estava no avião pra Pamplona, um avião de hélice da Ibéria que rangia e cheirava a oleo, parecia um ônibus antigo. Cheguei muito cansado, fiquei em uma pousada onde as brasileiras ja tinham reserva,consegui um quarto pra mim, carimbei o primeiro selo na credencial e fui dormir, isso ja era quase uma da tarde.
CAMINHO DE SANTIAGOMuralha de Pamplona
La pela metade da tarde acordei, comi alguma coisa num restaurante perto da pousada, tirei algumas fotos em Pamplona, caia uma chuva forte, combinei com as brasileiras de dividir um taxi até Saint Jean no dia seguinte.

Etapa 1 02/05/2007 - 8kms
Pamplona -> Saint Jean Pied de Port -> Honto -> Orisson

Após uma noite tumultuada, devido ao fuso horário eu não consegui dormir muito bem. Tomei café da manhã junto com as brasileiras em uma cafeteria perto da pousada e em seguida pegamos o taxi para Saint Jean. O dia estava ensolarado e com um céu bem azul. Logo que chegamos em Saint Jean procuramos o posto de informação, fizemos a reserva no albergue de Orisson, almoçamos, tiramos algumas fotos e começamos a caminhada.
CAMINHO DE SANTIAGOPonte em Saint Jean
Após alguns kms como meu ritmo era mais rápido que o das brasileiras, me distanciei e avencei rapidamente serra a cima ate chegar no albergue de Orisson.
CAMINHO DE SANTIAGOAlbergue de Orisson
O albergue possui dois andares com um deck na frente e um bar no andar terreo. Assim que cheguei ja coloquei minha mochila no quarto e fui tomar uma cerveja francesa de frente para os pirineus.
CAMINHO DE SANTIAGOPirineus
Albergue muito bom com janta e café da manhã, chuveiros quentes. Em meu quarto haviam 3 beliches, onde dormiram a Fátima, Dalva, Lu, Sandra, Eu e a Cristine que era uma senhora francesa de 73 anos que estava no caminho pela terceira vez. Ela me deu de presente um pingente onde se lia "Ô Marie, conçue sans péché, priez pour nous qui avons recours à vous".

Etapa 2 03/05/2007 - 17kms
Orisson -> Collado de Bentartea -> Roncesvalles

A travessia dos Pirineus é muito linda, mas também é a parte mais difícil do caminho, alguns peregrinos fazem o caminho de Saint Jean até Roncesvalles em um dia, eu preferi dividir em duas etapas para não ficar muito pesado, mesmo assim cheguei em Roncesvalles com dores no joelho.
CAMINHO DE SANTIAGOPirineus
O albergue de Roncesvalles é uma construção antiga, mas bem conservada e reformada recentemente. Cheguei de baixo de chuva e logo fui comer alguma coisa no restaurante próximo ao albergue.
CAMINHO DE SANTIAGOAlbergue de Roncesvalles
Em Roncesvalles acessei a internet, mandei emails pro povo no Brasil e vi noticias do Brasil, após isso voltei pro albergue, carimbei a credencial e escolhi a cama.
CAMINHO DE SANTIAGOAlbergue de Roncesvalles
No final da tarde vi a missa na Igreja de Roncesvalles, jantei, e fui dormir pois estava muito cansado.

Etapa 3 04/05/2007 - 21,8kms
Roncesvalles -> Burguete -> Espinal -> Biskarreta -> Lintzoain -> Zubiri

Acordei cedo e comecei a caminhar, andei um bom pedaço com a Fátima, conversamos muito sobre nossas vidas no Brasil. A Fátima mora em Brasilia, casada e mãe de alguns filhos (não lembro quantos). Paramos pra comer em Burguete. Em seguida pegamos chuva, muita chuva, até chegar em Zubiri onde paramos no primeiro albergue que encontramos.
CAMINHO DE SANTIAGOCaminho na chuva
Comemos uma Paella muito boa em Zubiri, mandei algumas fotos via email pro Brasil.

Etapa 4 05/05/2007 - 20,3kms
Zubiri -> Larrasoaña -> Akerreta -> Zuriain -> Irotz -> Trinidad de Arre -> Burlada -> Pamplona

O caminho de Zubiri até Pamplona foi debaixo de muita chuva, parei poucas vezes quando achava algum lugar onde pudesse ficar sem pegar chuva. É um trecho bonito parte por um trilha e parte pelo acostamente de uma rodovia. A entrada em Pamplona é pelas muralhas que são muito belas.
CAMINHO DE SANTIAGOMuralha de Pamplona
Ficamos no albergue municipal de Pamplona, um albergue muito grande onde fizemos novos amigos, encontramos mais um brasileiro, o Onório e a partir dai um Espanhol chamado Alberto também seguiu com a gente.
CAMINHO DE SANTIAGOCozinha do albergue
Fizemos uma macarronada e tomamos vinho. Dei mais algumas voltas por Pamplona, comprei cartão postal, tirei algumas fotos e depois voltei pro albergue e fui dormir.

Etapa 5 06/05/2007 - 24kms
Pamplona -> Cizur Menor -> Zariquiegui -> Uterga -> Muruzábal -> Óbanos -> Puente la Reina

O albergue era bom no geral, a quantidade de banheiros era pouca pra tanta gente, mas as camas eram confortáveis. Dormi muito bem, acordei cedo pois nesse dia tinha outro desafio que era o monte do perdão (Alto del Perdón). Caminhei um pouco com a Dalva, depois com a Fátima e logo me distanciei pela diferença de ritmo. Conversei com um canadense, depois passei por uma professora boliviana que caminhava junto a um grupo de jovens americanos, mais a frente passei por um espanhol chamado Pascoal que caminhava com um australiano chamado Dave.
Cheguei no alto do perdão onde possui vários cata-ventos gigantes, ou melhor, usinas eólicas. O som das hélices que cortavam o vento era assustador. No alto do perdão tem muito vento, tanto que existe um monumento em homenagem aos peregrinos onde se lê "Donde se cruza el camino del viento con el de las estrellas". O caminho das estrelas é uma referência ao caminho de Santiago de Compostela, onde compostela é Campo de Estrela, o céu nessa região possui muitas estrelas.
CAMINHO DE SANTIAGOAlto do Perdão
A descida do alto do perdão é muito difícil, o terreno possui muitas pedras soltas, o risco de escorregar é grande, por isso é preciso usar sempre o cajado como apoio. Ainda na descida passei por três finlandeses que seguiam em fila indiana com dois cajados cada, pareciam que esquiavam morro abaixo.
Cheguei no albergue Padre Reparadores, albergue muito bom, me alojei num quarto com 3 senhores italianos, O Giorgio, outro Giorgio e o Guido Piccon. Logo em seguida chegaram Fatima e Lu e me transferi pro quarto delas afinal não consegui manter um dialogo continuo com os italianos.
CAMINHO DE SANTIAGOPonte de Puente la Reina
Todos os guias do caminho recomendam conhecer a Ermita Santa Maria de Eunate, que ficava a 2kms fora do caminho (4km ida e volta) e como nossos pés estavam muito doloridos, eu e a Fátima procuramos um taxi, convidamos a Sandra, Dalva e a Lu e fomos conhecer a Ermita, que é muito bonita.
CAMINHO DE SANTIAGOErmita Santa Maria de Eunate

Etapa 6 07/05/2007 - 21,8kms
Puente la Reina -> Mañeru -> Cirauqui -> Lorca -> Villatuerta -> Estella

Acordei cedo, comecei a caminhada, em pouco tempo ja caminhava sozinho em direção a Estella. Passei por campos com cultivo de uva em Mañeru e Cirauqui.
CAMINHO DE SANTIAGOUvas
Nesse trecho o caminho atravessa algumas pontes medievais e romanas. A chegada em Estella é por uma estrada que passa na frente de uma igreja muito antiga, a Igreja Santo Sepulcro. Na frente dessa igreja havia um espanhol, o Miguel, que tomava vinho sentado em um banco de frente para o rio. Tomei alguns copos de vinho com ele até a chegada de Fátima.
CAMINHO DE SANTIAGOIgreja Santo Sepulcro
O albergue é logo após a igreja. Ele é muito espaçoso, serve café da manhã e possui poucos banheiros em relação a quantidade de peregrinos. Como a Fátima demorava a chegar, fui até o correio mandar um cartão postal e encontrei ela la. A Fátima chegou de taxi, pois estava com muitas dores e por isso ela não passou por mim. Logo em seguida ela percebeu que havia perdido a carteira com todos os documentos e cartões do banco. Fui com ela até o telefone publico pra cancelar os cartões, depois voltamos pro albergue pra comer alguma coisa.
Quando chegamos no albergue havia um recado pra ela passar na Policia pois ela havia esquecido a carteira dentro do Taxi e o motorista havia entregue na polícia (com tudo dentro).

Etapa 7 08/05/2007 - 21,3kms
Estella -> Ayegui -> Ázqueta -> Villamayor de Monjardín -> Los Arcos

Na saida de Estella tem uma fonte com vinho, onde se pode beber a vontade, tiramos algumas fotos e seguimos nosso caminho. Mais a frente encontramos uma gaúcha, a Edithe, conversamos um pouco com ela e continuamos até que me separei do grupo.
CAMINHO DE SANTIAGOFonte de Vinho
No meio do caminho encontrei os americanos que descansavam junto com o Alberto, o espanhol, e o Renato, um paulista. Sentei com eles, comi chocolate e segui pelos vários campos de cultivo.
CAMINHO DE SANTIAGOVillamayor de Monjardin
Cheguei em Los Arcos num bom papo com o Alberto. Fui até o albergue, deixei minhas coisas e fui comer. Logo após chegaram a Fátima, Lu, Dalva, Sandra, Renato e o Onório. A Fátima me falou que no dia seguinte ela iria até Viana e eu pretendia ir até Logroño, então combinei com o Renato de sairmos juntos na manhã seguinte.
CAMINHO DE SANTIAGOIgreja de Los Arcos
Mais a noite participamos da missa na igreja de Los Arcos, onde o padre deu uma benção especial para os peregrinos presentes. A igreja tem um altar todo em ouro, muito bonito.

Etapa 8 09/05/2007 - 27,9kms
Los Arcos -> Sansol -> Torres del Río -> Viana -> Logroño

Acordei bem cedo, fui até a cama da Fátima me despedir dela. Criamos uma amizade forte tanto que ela me chamava de filho peregrino. Nos despedimos com a vontade de se encontrar mais pra frente no caminho. Me despedi da Sandra e dos outros e segui o caminho com o Renato. O trecho até Viana é bem cansativo, em um sobe e desce constante, após isso fica pior pois entra em uma área seca, foram quase 10kms de Viana até Logroño debaixo de um sol muito forte, por uma área seca com muita pedra e barro. Chegamos logo após o meio dia no albergue, deixamos nossas coisa e procuramos um bar onde tomamos uma coca-cola bem gelada e comemos um bocadillo. Voltamos pro albergue e encontramos a gaucha Edithe, combinamos de jantar juntos. Após um passeio pela cidade jantamos em um restaurante muito bom, eu comi uma Paella que estava ótima.
CAMINHO DE SANTIAGOPaella em Logroño
Depois voltamos pro albergue, acessei a internet e fui dormir. O albergue é publico e muito bom.
CAMINHO DE SANTIAGOIgreja Santiago

Etapa 9 10/05/2007 - 30,7kms
Logroño -> Navarrete -> Ventosa -> Nájera

Acordamos cedo e logo começamos a caminhar. A saida de Logroño é por um grande parque onde vários moradores locais passeiam de manhã ou levam o cachorro pra passear, depois o caminho segue uma grande rodovia. Foi uma caminhada demorada debaixo de muito sol até chegar em Nájera.
CAMINHO DE SANTIAGONájera
Nájera é uma cidade pequena e bonita. Logo que deixei a mochila no albergue ja sai pra procurar uma farmácia, pois precisava de esparadrapo e também de um Cyber pra baixar fotos e mandar notícias pro Brasil. Mais tarde comi um bocadillo (sanduíche) e fui dormir. O albergue era razoável, as camas tinham um colchão fino que dava pra sentir a madeira, e os banheiros eram poucos e mal cuidados.
CAMINHO DE SANTIAGOIgreja de Nájera

Etapa 10 11/05/2007 - 21,0kms
Nájera -> Azofra -> Cirueña -> Santo Domingo de La Calzada

Novamente acordamos cedo. A saída de Nájera é por uma estrada com vários canais ao lado que levam água para irrigação. Parte do caminho é por plantação de trigo e outra parte pelo lado de uma grande rodovia. Chegando em Santo Domingo, havia uma rua com várias paredes de madeira e descobrimos que teria uma corrida de touros, onde eles largam os touros no início da rua e quem é "corajoso" o suficiente corre na frente dos touros. Também tinha um desfile que entrava no albergue. Os organizadores do desfile não deixaram a gente entrar até acabar o desfile pois nossas roupas estavam sujas (pegamos um pouco de pó e lama no caminho). Nos informaram que era o dia de Santo Domingo e que havia uma festa em homenagem a ele. Aguardamos quase uma hora até acabar o desfile para ai sim entrar e descobrir que o desfile era em homenagem aos peregrinos e por isso entrava no albergue, o estranho é que o desfile era em nossa homenagem mas a gente não podia entrar pois estávamos sujos.
CAMINHO DE SANTIAGOFesta de Santo Domingo
CAMINHO DE SANTIAGOFesta de Santo Domingo
Após entrar no albergue e depois de almoçar encontramos o espanhol Alberto e o australiano Dave, então eu, o Renato, Dave e o Alberto tiramos algumas fotos da cidade e no final da tarde ganhamos vinho, queijo, chorizo dos organizadores da festa. Visitamos a catedral de Santo Domingo onde tem um galo vivo dentro que canta para alguns peregrinos. Segundo a tradição se você entrar na catedral e ele cantar você terá um bom caminho, ou uma benção...
CAMINHO DE SANTIAGOQuarteto Fantastico

Etapa 11 12/05/2007 - 22,1kms
Santo Domingo de La Calzada -> Grañon -> Redecilla del Camino -> Castildelgado -> Viloria de Rioja -> Villamayor del Río -> Belorado

Quando acordamos havia muito barulho no albergue, os organizadores da festa de Santo Domingo distribuiam uma sopa de cordeiro para os habitantes locais e turistas. O Renato ficou pra comer e eu segui o caminho. Mais pra frente encontrei o espanhol Pascoal junto com o australiano Dave e caminhamos durante um bom tempo, mas pra frente encontramos a Edithe que também caminhou com a gente um pedaço. Depois eu e a Edithe nos distanciamos e chegamos em Belorado, pegamos o segundo albergue que era melhor que o da entrada. Alguns minutos mais tarde o Renato, Pascoal e Dave chegaram. Almoçamos em um restaurante na frente do albergue e depois compramos comida em um supermercado pra fazer a janta no albergue.
CAMINHO DE SANTIAGOCaminho sem fim
Combinamos de sair juntos no dia seguinte, Eu, Renato e a Edithe.

Etapa 12 13/05/2007 - 27,7kms
Belorado -> Tosantos -> Villambistia -> Espinosa del Camino -> Villafranca Montes de Oca -> San Juan de Ortega -> Agés

Acordamos cedo e logo começamos a caminhar. O Renato estava com algumas bolhas nos pés e foi num ritmo mais lento, eu e a Edithe avançamos. O caminho seguia por uma estrada de terra por uma área de reflorestamento e de plantação de trigo. Passamos por ruinas e pegamos muito vento no caminho.
CAMINHO DE SANTIAGORuinas de um monastério
Nossa programação era ir até San Juan de Ortega, onde o padre que cuida do albergue oferece toda noite uma sopa de alho para os peregrinos. Quando chegamos em San Juan, chovia muito, logo entramos no albergue e pelo estado péssimo do albergue resolvemos continuar até a cidade seguinte. Andamos até Agés onde tem dois albergue muito bons, encontramos o Dave la e o Renato não apareceu. Junto ao albergue havia um bar onde passava a corrida de Fórmula 1 na TV, todos os habitantes do "pueblo" viam e torciam pro espanhol Alonso. A corrida era na Espanha e no final quem ganhou foi o brasileiro Felipe Massa, eu era o único que estava feliz naquele bar. Depois jantei e fui dormir, no mesmo quarto estavam os três italianos que havia conhecido em Puente la Reina, a Edithe ficou um tempo de papo com eles pois ela sabia falar um pouco de italiano.

Etapa 13 14/05/2007 - 25,6kms
Agés -> Atapuerca -> Cardeñuela-Riopico -> Orbaneja -> Castañares -> Burgos

Acordamos cedo e caminhamos até Burgos boa parte por uma trilha e depois por uma calçada. Burgos é a capital da provincia de mesmo nome e com isso andamos quase 10kms por dentro da cidade, oque é muito cansativo e parece que o tempo não passa. Eu e a Edithe fomos direto pra catedral que é muito famosa e por um desencontro me perdi dela. Visitei a catedral e na saida encontrei o Renato, fui com ele até o albergue e depois voltei até um supermercado pra comprar comida.
CAMINHO DE SANTIAGOCatedral de Burgos
CAMINHO DE SANTIAGOTeto da catedral
O albergue possuia poucos banheiros, a água do chuveiro era gelada e o lugar para lavar as roupas era uma calha. Em compensação ele ficava no meio de um grande parque e as camas eram boas. Encontrei um casal romeno e tentei manter uma conversa com eles. O senhor romeno sabia falar um pouco de inglês, um pouco de latim, espanhol e com isso eu com meu portunhol mantive uma conversa de quase uma hora com ele. Depois o Renato voltou e conversamos, ele me falou que ficou no albergue de San Juan de Ortega e comeu a famosa sopa de alho, mas disse que não achou alho na sopa, era só água quente com pão.

Etapa 14 15/05/2007 - 29,5kms
Burgos -> Villalbilla -> Tardajos -> Rabé de las Calzadas -> Hornillos del Camino -> Hontanas

Eu, Renato e Edithe acordamos cedo, e caminhamos até Hontanas contando piadas, rindo, cantando músicas atuais e sertanejas antigas. O sol estava forte, pouco vento e o caminho era uma grande reta com plantações dos dois lados.
CAMINHO DE SANTIAGOEu
Logo que chegamos em Hontanas, ja reservamos nossas camas no primeiro albergue. A cidade é muito pequena, não passa de 30 casas, na parte de baixo do albergue tinha um bar onde eu e o Renato sentamos e pedimos uma coca-cola com muito gelo e depois ficamos um tempo bebendo "San Miguel" que é uma cerveja espanhola. Encontramos os três italianos e mais dois brasileiros no mesmo albergue, outro chamado Renato e o amigo dele, Alexander. Em seguida chegou o Dave, Pascoal e uma austríaca chamada Brigitte. Em alguns minutos ja estávamos todos na mesma mesa rindo e conversando até o final da tarde. Na mesa ao lado da nossa havia um casal de espanhóis, o Pepe e a Ana que depois se uniram a nossa roda de conversa. Também vimos um outro casal, de brasileiros, o Carlos e a esposa dele, a Massayo.
CAMINHO DE SANTIAGORenato, Eu e Edithe

Etapa 15 16/05/2007 - 28,6kms
Hontanas -> Castrojeriz -> Puente Fitero -> Itero de la Vega -> Boadilla del Camino

Começamos a caminhar cedo, sol ja amanheceu forte. Passamos por uma antiga fortaleza templária que atualmente é um albergue.
CAMINHO DE SANTIAGOAlbergue Templário
Após alguns kilometros o Renato sentiu muitas dores nos pés resolveu parar pra tomar uma coca-cola, a Edithe parou com ele e eu segui. O caminho estava relativamente tranquilo, apenas estradinhas que cortavam plantações, mas o Sol estava muito forte e comecei a sentir fraqueza, como minha água estava no fim e o meu mapa mostrava que estava bem próximo da meta do dia, avancei rapidamente até chegar no albergue. Pouco antes de chegar havia uma árvore próxima a estrada, a única em muitos kilometros, e ela fazia uma grande sombra em cima da estrada e na sua sombra estavam muitos carneiros (cordeiros como chamam la), pra passar somente com a licença deles.
O albergue, pelo lado externo parecia uma casa caindo e mal cuidada, mas logo que entrei tive outra visão, uma casa muito bonita, com um gramado bem verde e uma decoração bem feita. Um senhor que parecia o hospitaleiro viu a bandeira do Brasil em minha mochila e disse "Brasileño" e eu "Si" e ele prontamente respondeu "Soy Argentino".
CAMINHO DE SANTIAGOAlbergue En El Camino
O nome dele é Hugo, dono do albergue, contou que fica 9 meses la e no inverno europeu ele fecha e fica 3 meses em Balneário Camboriú, no Brasil. Ele tinha um ajudante, chamado de Dudu, que era um espanhol que ja havia morado no Brasil, então falava português muito bem. Encontrei a espanhola Ana e o Pepe, além da austriaca também. Jogamos conversa fora e logo chegou o Renato e a Edithe. Ficamos novamente de papo até a janta, e depois cada um pra sua cama que no dia seguinte tinha mais estrada.

Etapa 16 17/05/2007 - 25,2kms
Boadilla del Camino -> Frómista -> Población de Campos -> Revenga de Campos -> Villarmentero de Campos -> Villalcázar de Sirga -> Carrión de Los Condes

Acordamos bem cedo, o Renato resolveu tomar café no albergue e eu e a Edithe seguimos viagem. Passamos por uma represa em Frómista, o caminho atravessa ela por uma passarela.
CAMINHO DE SANTIAGOFrómista
Quase 20kms são pelo lado de uma rodovia. Haviam vários marcadores no caminho e a cada 1km havia uma marcação de kilometragem na estrada, então com o tempo a gente caminhava até alcançar a marcação seguinte, e isso deixava o caminho nervoso pois andávamos um monte até a marcação e la marcava que ainda faltavam x kilometros. Eu e a Edithe resolvemos então contar quantos passos a gente dava em um kilometro. Eu contei 1263 passos a cada kilometro, isso no caminho inteiro dava um total de 1.010.400 passos.
CAMINHO DE SANTIAGOSenda de Peregrinos
Chegamos no albergue, deixamos nossas coisa e procuramos um restaurante, tambem fui no banco sacar dinheiro. Encontrei o espanhol Miguel, o Carlos e a Massayo, a Ana e o Pepe, os três italianos e mais tarde o Renato. Eu e o Renato procuramos um bar onde tinha internet, baixamos fotos e mandamos pro Brasil enquanto passava uma tourada na TV. O bar estava lotado e o povo vibrava a cada corte que o toureiro fazia no couro do touro com a espada. Algo bem estúpido, mas é a tradição deles. Após isso voltei pro albergue, jantei e fui dormir.

Etapa 17 18/05/2007 - 26,7kms
Carrión de Los Condes -> Calzadilla de la Cueza -> Lédigos -> Terradillos de Templarios

Começamos a caminhar cedo, o Renato e a Ana ficaram pra trás devido a dores nos pés. Seguiram eu, Edithe e o Pepe. Os primeiros kilometros são bem cansativos pois são 17kms sem nada. Chegamos a cidade, que mais parecia uma cidade abandonada. O albergue é muito bom e espaçoso.
CAMINHO DE SANTIAGOAlbergue Jacques De Molay
Eu, Renato e a Edithe ficamos um tempo bebendo cerveja em um terraço, depois usamos a internet, fizemos compras e mais tarde jantamos com os três italianos, e o Pepe.
CAMINHO DE SANTIAGOJanta no albergue
No final da tarde surgiu um monte de pássaros que "brincavam" nos arredores do albergue. Após ver durante um tempo essa cena, fui dormir.

Etapa 18 19/05/2007 - 30,1kms
Terradillos de Templarios -> Sahagún -> Bercianos -> El Burgo Ranero

Acordei bem cedo, no meu quarto havia uma senhora alemã, o filho dela, o Pepe e a Edith. Enquanto me arrumava e amarrava o cardaço da bota, olhei pra cima e vi a senhora alemã trocando a roupa sem se preocupar com a minha presença. Desci a escada e fui comer alguma coisa na área externa do albergue enquanto esperava a Edithe e o Renato. Nisso apareceu um cachorro, dos grandes, e com uma cara de fome, não parava de olhar pro meu bolo. Dei um pedaço pra ele e vi que ele queria mais, após fazer o desjejum meu e do cachorro, segui viagem.
Logo no início o Renato sentiu muitas dores nos pés e avisou que iria mais devagar. Combinamos de ir até El Burgo Ranero, seguimos viagem, eu, Pepe e Edithe.
CAMINHO DE SANTIAGOEdithe, espanhol Pepe, Eu
Caminhamos sempre próximo a uma rodovia, caminho tranquilo e leve.
CAMINHO DE SANTIAGOEdithe, Peregrino, Eu
Com algumas paradas pra fotos e descanso. Numas das paradas o Pepe esqueceu a máquina fotográfica e lembrou apenas alguns kilometros pra frente, por sorte veio um carro da polícia, ele contou oque havia acontecido e os policiais foram buscar a máquina pra ele.
CAMINHO DE SANTIAGOErmita de la Virgen del Puente
Chegamos no albergue, encontramos os italianos la. Conversamos e batemos papo, o tempo passou e o Renato não chegou, oque deixou a gente preocupado.
CAMINHO DE SANTIAGOAlbergue
Passamos em um supermercado, compramos nossa janta, almoçamos em um restaurante. Mais tarde o hospitaleiro deu dicas do restante do caminho para todos os peregrinos presentes e depois fui dormir. A noite choveu muito.

Etapa 19 20/05/2007 - 37,4kms
El Burgo Ranero -> Reliegos -> Mansilla de Las Mulas -> Villamoros de Mansilla -> Puente de Villarente -> Arcahueja -> León

Começamos a caminhar cedo, o dia se mostrava claro e com Sol forte. O caminho sempre ao lado de uma rodovia, até que na metade do caminho o tempo fechou e começou uma leve chuva. Após alguns kilometros a chuva era intensa, e molhava tudo. Eu, Edithe e Pepe aceleramos o passo na entrada de León, até chegar ao albergue onde todos secavam-se e secavam seus pertences. A chuva foi muito forte que nem a capa de chuva deu conta.
CAMINHO DE SANTIAGOReliegos
Depois de tomar banho e esperar a chuva passar, procuramos algum lugar pra almoçar e partimos para conhecer a famosa catedral de León.
CAMINHO DE SANTIAGOCatedral de León
Famosa pelos seus 1800m2 de vitrais. É um local mágico, ficamos um tempo la sentados, sem tirar os olhos dos vitrais e da construção.
CAMINHO DE SANTIAGOVitrais da catedral
Mais tarde voltamos pro albergue onde encontramos os três italianos, agora eu ja conseguia conversar alguma coisa com eles. E quando eu via eles longe ja gritava "Ola Italia" e eles "Ola Brasil".
CAMINHO DE SANTIAGOOs italianos Giorgio, Giorgio, Guido Piccon, Eu
Mais tarde jantamos no refeitorio do albergue e andamos até a igreja, anexa ao albergue que é mantido por freiras. Elas fizeram uma oração e uma benção aos peregrinos. O Renato não apareceu.

Etapa 20 21/05/2007 - 24,3kms
León -> Trobajo del Camino -> La Virgen del Camino -> Valverde de la Virgen -> San Miguel del Camino -> Villadangos del Páramo -> San Martin del Camino

Acordamos cedo, nos despedimos do Pepe pois ele iria voltar pra casa, os espanhóis fazem apenas um trecho do caminho por vez devido ao curto tempo de férias.
O caminho margeava uma rodovia e cortava algumas cidades pequenas. Numa delas, em frente a uma casa, havia uma cesta com doces, balas e bolachas com uma placa onde se lia que eram doações para os peregrinos, veio em boa hora aquelas bolachas, eu e a Edithe paramos e pegamos algumas.
Chegamos em San Martin, garoava. O albergue era bom, tinha acesso a internet grátis, baixei muitas fotos, mandei recados pro Brasil, e um email pro Renato perguntando onde ele estava e para onde nós íamos. Havia um email dele onde ele contava que estava bem e que devido aos pés teve que parar e por isso estava uma etapa atrás da gente. Mandei um email pra Fátima e um pra Sandra. A Edithe fez amizade com três italianas que estavam la, eu não entendia nada do que elas falavam. Mais tarde fui dormir com o som da chuva ao fundo.

Etapa 21 22/05/2007 - 24,0kms
San Martin del Camino -> Puente Y Hospital de Órbigo -> Villares de Órbigo -> Santibáñez de Valdeiglesias -> San Justo de La Vega -> Astorga

Acordamos cedo com o desespero de uma peregrina que dizia que haviam roubado o cajado dela. Caminhamos por estradas, agora longe da rodovia. O caminho subia e descia constantemente. Passamos por uma cidade chamada Hospital de Orbigo onde todo ano tem uma festa medieval onde fazem um campeonato de Justa, onde cavaleiros se enfrentam com lanças.
CAMINHO DE SANTIAGOPonte de Hospital de Órbigo
Após alguns kilometros chegamos em Astorga. Na entrada de Astorga encontramos o espanhol Miguel na frente de um albergue, disse que era o hospitaleiro daquele albergue. Andamos mais e ficamos no albergue público, quase na frente da catedral.
CAMINHO DE SANTIAGOEntrada de Astorga
Astorga é uma cidade muito bonita, construída dentro de uma muralha. Tanto a catedral como o palácio Episcopal são muito belos.
CAMINHO DE SANTIAGOPalácio Episcopal
Depois de deixar as coisas no albergue, andamos pela cidade pra tirar algumas fotos, inclusive da muralha, e voltamos até o centro onde havia uma pizzaria. Estava com saudades de pizza. Próximo a pizzaria encontramos o outro Renato e o amigo dele, Alexander. Eles vieram um trecho de ônibus, até alcançar a gente, pois estavam com muitas dores.
CAMINHO DE SANTIAGOMuralha de Astorga
Ficamos um tempo de papo, passeamos pela cidade, gravei minhas fotos num CD pois o Renato queria uma cópia. Depois ficamos em uma praça, na frente do "Ayuntamiento" bebendo "Caña" e comendo "Tapa".
Comprei uma barra de chocolate fabricado em Astorga e fui pro albergue dormir.

Etapa 22 23/05/2007 - 26,3kms
Astorga -> Murias de Rechivaldo -> Santa Catalina de Somoza -> El Ganso -> Rabanal del Camino -> Foncebadón

Nossa etapa nesse dia era até Rabanal Del Camino, o caminho quase todo era de subida, em uma serra. Pegamos uma garoa na metade do caminho e logo depois virou chuva. Quando chegamos em Rabanal de Camino perguntei pra Edithe se ela queria continuar, afinal chegamos muito cedo em Rabanal e eu não estava cansado ainda. Ela a princípio não queria pois Foncebadón é uma cidade mística, alguns chamam de cidade fantasma, mas logo ela concordou em ir. Pegamos bastante chuva nos 6kms que separam as duas vilas e chegamos em Foncebadón. Quando eu vi a placa e a entrada, entendi o porque era chamada de cidade fantasma. A cena era uma placa no meio da neblina e mais ao fundo uma cruz que aparecia no meio da névoa, os únicos sons eram os latidos de um cachorro e o som da chuva na terra que formava córregos ao lado da estrada.
CAMINHO DE SANTIAGOEntrada de Foncebadón
Entramos no albergue e encontramos os italianos, parecia que seguiam a gente pois nos encontrávamos com eles com muita facilidade. Falei pra Edithe que seguiria até a cruz de ferro e depois iria voltar. Deixei minha mochila no albergue e fui.
CAMINHO DE SANTIAGOFoncebadón
Fui até a cruz de ferro, deixei a pedra que levei do Brasil, fiz uma oração e voltei pro albergue. Eu estava todo molhado e com muito frio. Tomei um banho, sequei as roupas, almocei. Na metade da tarde o céu abriu, veio um sol e a Edithe resolveu conhecer a cruz de ferro, fui com ela até la. Depois voltamos, jantamos e fui dormir. Antes de dormir o dono do albergue fez uma proposta, perguntou se eu não gostaria de trabalhar la. Falei que iria pensar no restante do caminho e dava uma resposta via email.

Etapa 23 24/05/2007 - 27,0kms
Foncebadón -> La Cruz de Hierro -> Manjarín -> El Acebo -> Riego de Ambrós -> Molinaseca -> Campo -> Ponferrada

Acordamos cedo, e seguimos por uma picada que leva até a cruz de ferro, onde avistamos os italianos, e como de costume gritei "Ola Italia", e eles se viraram e gritaram "Ola Brasil". Tiramos algumas fotos e seguimos caminho, agora com destino Manjarín onde mora o Thomas, considerado o último cavaleiro templário de Ponferrada. Ele mora em uma casa sem energia elétrica, na verdade a única casa em pé de Manjarín, as outras todas estão em ruínas e não mora mais ninguém la. Compramos alguns medalhões templários, camisa, adesivos e continuamos a caminhar.
CAMINHO DE SANTIAGOCruz de Ferro
Descemos alguns kilometros e chegamos em El Acebo, paramos em um bar movimentado onde tinha pra vender o Bocadillo da Casa. Como vi várias pessoas que comiam o tal do Bocadillo da Casa, resolvir pedir um para experimentar. Parecia um pão mergulhado no azeite, me embrulhou o estomago o resto do dia.
CAMINHO DE SANTIAGOEl Acebo
Um pouco antes de Ponferrada, passamos por Molinaseca, cidade pequena e muito bonita, e depois por algumas plantações de Cereja, onde comi algumas direto das árvores. Em Ponferrada, ficamos no albergue municipal. Bem amplo e muito bom. Visitamos o castelo Templário de Ponferrada, a catedral, onde tinha uma exposição de obras sobre o caminho.
CAMINHO DE SANTIAGOCastelo Templário de Ponferrada
Depois voltamos pro albergue, acessei a internet, mandei fotos, mandei um email pro Renato, jantei e fui dormir. Em meu quarto dormiu um casal alemão e um senhor português.

Etapa 24 25/05/2007 - 23,9kms
Ponferrada -> Columbrianos -> Fuentes Nuevas -> Camponaraya -> Cacabelos -> Villafranca del Bierzo

Acordamos cedo e caminhamos um bom tempo até sair de Ponferrada, em determinado momento as setas do caminho sumiram e a gente como outros peregrinos ficamos em uma rotula recém construída a procura da direção correta até que uma peregrina achou e deu um berro chamando a todos. Passamos por várias plantações de cereja e sempre pegamos algumas pra comer. Encontramos os três italianos no caminho e o Giorgio, o mais velho, reclamava muito de dores nas pernas, provavelmente tendinite. Peguei um anti-inflamatório e entreguei pra ele, na Europa não da pra comprar nas farmácias sem ter receita e por sorte eu levei uma quantidade boa. Quando eu sentia dor nos joelhos eu tomava um e no dia seguinte estava tudo bem.
Chegamos em Villafranca, deixamos as coisas no albergue, procuramos algum restaurante e depois visitamos a cidade. Usamos a internet em uma loja de informática, compramos comida no supermercado e voltamos pro albergue.
Ao lado do albergue tem uma igreja, com a famosa porta do perdão. A séculos atrás um papa determinou que os peregrinos que chegassem enfermos em Villafranca, teriam o direito de passar pela porta do perdão (porta lateral da Igreja de Santiago em Villafranca) e todos os pecados estariam perdoados.
CAMINHO DE SANTIAGOIgreja de Santiago
Depois visitamos o castelo, próximo a igreja. É um castelo privado, onde moram os Marqueses de Villafranca. O castelo é fechado pra visitação, a família que mora la não permite a visita.
CAMINHO DE SANTIAGOCastelo dos Marqueses de Villafranca
Mais tarde voltamos pro albergue, jantamos, fiz umas anotações e fui dormir.

Etapa 25 26/05/2007 - 22,5kms
Villafranca del Bierzo -> Pereje -> Trabadelo -> La Portela -> Ambasmestas -> Vega de Valcarce

O caminho de Villafranca até Vega de Valcarce é todo por uma rodovia desativada, a rodovia nova passa por cima em um grande viaduto de alguns kilometros, sendo assim o caminho, apesar de ser no asfalto, é tranquilo pois raramente passa um carro. Chegamos cedo em Vega de Valcarce onde tem um albergue cheio de bandeiras do Brasil, ele estava fechado ainda e por isso aguardamos até abrir. Depois de alguns minutos veio um senhor chamado ITABIRA, que em bom português falava que era o dono do albergue e pediu minha ajuda, para que eu carimbasse as credenciais de quem pedisse e meu deu o carimbo, fiquei muito contente com isso. Logo após ele abriu o albergue e ficou de papo com a gente. O atendimento do Itabira é ótimo e o albergue é muito bem estruturado, recomendo! Albergue Nossa Senhora Aparecida.
CAMINHO DE SANTIAGOAlbergue Nossa Senhora Aparecida
Em um determinado momento apareceu muitos peregrinos ao mesmo tempo e ele novamente pediu minha ajuda, para mostrar os quartos e banheiros ao peregrinos que entravam enquanto ele fazia o cadastro, foi divertido. No meio da tarde eu e a Edithe saimos pra passear, passamos em um mercado e compramos comida, visitamos as ruinas do castelo Sarracin que fica 1km distante do albergue e retornamos para a janta, que era uma deliciosa feijoada no próprio albergue.
CAMINHO DE SANTIAGORuinas do Castelo Sarracin
Usei a internet no albergue, mandei recados, fotos e mais tarde fui dormir.

Etapa 26 27/05/2007 - 23,5kms
Vega de Valcarce -> Ruitelán -> Las Herrerías -> La Faba -> Laguna de Castilla -> O Cebreiro -> Liñares -> Hospital -> Alto do Poio -> Fonfría

Acordamos, estava um dia frio e tempo feio. Começamos a caminhar e não deu 15 minutos começous a garoar. Coloquei quase todas as camisas que carregava comigo (3 camisas) e a blusa e mesmo assim cotinuava frio. Subíamos o conhecido Cebreiro, serra alta e último obstáculo antes de Santiago.
CAMINHO DE SANTIAGOEntrada da Galícia, Cebreiro
Quanto mais subia mais frio ficava e mais forte era a chuva, nosso objetivo era chegar em Fonfría. Após passar pelo Cebreiro a chuva ficou muito forte, gelada e com muito vento. A minha calça molhou completamente assim como a mochila. Os kilometros até Fonfría não passavam nunca, acelerei o passo e me distanciei da Edithe. Uma hora depois a minha mão esquerda não dobrava mais e a da direita não abria, pois segurava o cajado. Acelerei mais ainda o passo, pra ver se esquentava, passou mais uns 45 minutos e cheguei no albergue de Fonfría. O hospitaleiro viu meu estado e disse pra entrar la, tomar um banho, secar a roupa e depois voltar pra fazer o cadastro, e assim eu fiz. O albergue é ótimo, água do chuveiro bem quente, com aquecedor nos quartos, secador de bota e tênis, lavadora e secadora de roupas, era quase um hotel. Pra mim esse foi o pior dia de caminhada.

Etapa 27 28/05/2007 - 27,2kms
Fonfría -> Viduedo -> Triacastela -> San Xil -> Furela -> Calvor -> Sarria

Acordamos cedo, e descemos até Triacastela para tomar um chocolate quente, em seguida continuamos o caminho, sempre nos guiando pelos sinais, setas amarelas pintadas no chão, arvóres, placas,...
CAMINHO DE SANTIAGOSinais do caminho
Na metade do caminho abriu o sol e encontramos uma senhora italiana com quem a Edithe conversava. Ela se chamava Helena e era de Veneza. Elas conversaram durante um bom tempo e eu mais a frente sem entender nada, depois se despediram e avançamos, o ritmo da italiana era um pouco menor que o nosso.
Em Sarria ficamos no primeiro albergue, muito bom, com quartos novos, banheiros limpos. Demos uma volta na cidade, compramos comida, usamos a internet e voltamos pro albergue. Ficamos um tempo no sol pra se aquecer e mais tarde fui dormir pra me recuperar.

Etapa 28 29/05/2007 - 30,4kms
Sarria -> Barbadelo -> Rente -> Brea -> Ferreiros -> As Rozas -> Vilachá -> Portomarín -> Gonzar

Saímos cedo de Sarria, em direção a Portomarín. Caminhamos por várias trilhas, encontramos os três italianos e caminhamos quase juntos até o marco que mostra que faltam 100kms pra Santiago.
CAMINHO DE SANTIAGO100kms pra Santiago
Eu e a Edithe paramos pra comer e logo em seguida continuamos e alcançamos os italianos novamente, andamos até Portomarín por várias estradas de terra.
CAMINHO DE SANTIAGOIgreja de Portomarín
Em Portomarín decidimos continuar a caminhar pois ainda era muito cedo pra parar, e assim caminhamos até um povoado chamado Gonzar, que cheirava a merda de vaca. Ficamos no albergue, que era péssimo, tinha apenas um bar ao lado que tinha um cheiro péssimo e muitas moscas. Comi pouca coisa e comprei vários produtos industrializados que vinham em pacotes fechados (biscoitos, salgadinhos,..), assim o risco de ter algum problema era baixo.

Etapa 29 30/05/2007 - 32,1kms
Gonzar -> Castromaior -> Hospital de La Cruz -> Ventas de Narón -> Ligonde -> Airexe -> Avenostre -> Palas de Rei -> Casanova -> Leboreiro -> Furelos -> Melide

Caminhamos por vários bosques, as vezes chovia, as vezes abria um Sol bonito, isso fazia com que a gente colocasse e tirasse a capa de chuva o tempo todo, tendo que tirar a mochila e assim forçar a coluna. Num determinado momento senti uma dor muito forte na coluna, continuei a caminhada e a dor piorou. Parei, tirei a mochila, descansei um pouco, joguei as garrafas de água fora (uma garrafinha de 500ml em cada lado da mochila, ou seja, joguei 1 kilo fora), tirei mais algumas coisas e joguei fora (laranja, biscoito). Depois disso consegui continuar o caminho e a dor passou com o tempo.
Em boa parte do caminho passamos por vários "Horrios" que são estruturas que guardam cereais longe do alcance dos ratos. Na galícia tem muito gado e plantação de milho e com isso tem muito rato e horrio.
CAMINHO DE SANTIAGOHórrio
Chegamos em Melide, andamos até o albergue público, o pior de todos, banheiros muito sujos, chuveiros sem porta, predio mal cuidado, além de poucos banheiros pra muita gente. Superada as dificuldades, procuramos um mercado pra comprar comida, depois uma loja de informática pra mandar noticias, eu a partir desse dia não mandaria mais notícias pois queria chegar de surpresa no Brasil. Depois procuramos a Casa Ezequiel, muito famosa por servir Polvo. Entramos, pegamos uma mesa, percebemos que o chão estava sujo, muito sujo e vimos que os funcionários quando limpavam uma mesa, apenas passavam um pano e jogavam os restos de comida pro chão e ali eles ficavam. Acho que limpeza não é o forte de Melide. Logo em seguida chegou os italianos, eles sentaram a mesa com a gente e comemos o famoso Polvo de Melide. Pra mim o polvo não tinha nada de mais, mas os italianos faziam uma careta de quem saboreavam um produto divino, cada um com seu gosto.
CAMINHO DE SANTIAGOPolvo de Melide
Depois voltamos pro albergue e mais tarde, após a janta, fui dormir.

Etapa 30 31/05/2007 - 30,4kms
Melide -> Boente -> Castañeda -> Ribadiso da Baixo -> Salceda -> Santa Irene

Saímos cedo do albergue e pegamos a direção errada, felizmente andamos apenas uns 200 metros, estavam eu, Edithe e os três italianos. Após corrigir a rota, seguimos para Santa Irene. O Giorgio feliz que a perna dele havia melhorado com as "pastilhas" (como ele falava) de anti-inflamatório que dei pra ele.
O caminho passava por vários bosques, pegamos um pouco de chuva e sol.
CAMINHO DE SANTIAGOCaminho pra Santa Irene
Chegamos em Santa Irene bem cedo. Ficamos no albergue público, na saída de Santa Irene. Assim que os italianos chegaram, voltamos 1 km até o restaurante, almoçamos e retornamos ao albergue.
CAMINHO DE SANTIAGOSanta Irene
Fiz algumas anotações, jantei coisas que restavam em minha mochila e um bocadillo comprado próximo ao restaurante e depois fui dormir.

Etapa 31 01/06/2007 - 22,7kms
Santa Irene -> Rúa -> Pedrouzo -> Labacolla -> San Marcos -> Monte de Gozo -> Santiago de Compostela

Acordamos cedo e seguimos pra Santiago, primeiro passamos pelo Monte do Gozo, de onde se vê toda a cidade de Santiago de Compostela. Encontrei a senhora italiana, amiga da Edithe, a Helena, e ela me perguntou onde estava minha "madre", não entendi direito e disse, a Edithe? E ela confirmou, ai disse que não era minha "madre", que havia conhecido ela no caminho e ela disse que a gente parecia mãe e filho, e realmente parecia.
A entrada da cidade é muito bonita, mas pros peregrinos falta sinalização, eram raros os momentos onde se achava uma placa que sinalizava o caminho até a catedral, tivemos que parar pra perguntar várias vezes como chegar na catedral.
CAMINHO DE SANTIAGOEntrada em Santiago
Assim que chegamos tiramos fotos e entramos pra participar da missa que começava ao meio-dia. A catedral fica lotada de peregrinos, todos cansados e felizes por chegarem. A missa é muito bonita, algumas orações são feitas em 7 línguas e é impossível conter a emoção de estar ali.
CAMINHO DE SANTIAGOCatedral de Santiago
Depois da missa saimos para comprar lembranças, alugar uma quarto em uma pousada, pegar a "Compostela", que é o certificado que os peregrinos ganham quando mostram a credencial que foi carimbada nos albergues por onde passou.
CAMINHO DE SANTIAGOInterior da Catedral
Visitamos museu, parque, estação de trem, e a própria cidade milenar que possui muitos prédios históricos. Comprei uma espada medieval, punhal, lembranças... Depois verificamos o ônibus para Finisterre pro dia seguinte. Passamos nos correios pra retirar oque despachamos no início do caminho, almoçamos, jantamos, mais fotos, reencontramos pessoas que conhecemos no caminho... dia muito corrido e agitado até que escureceu e o sono bateu.

Passeio 02/06/2007
Santiago de Compostela -> Finisterre

Acordamos tarde, participamos da missa no sábado ao meio-dia e em seguida pegamos o ônibus pra Finisterre. A viagem é enjoativa pois é muita curva, mas a vista é muito bonita. Chegamos em Finisterre e o albergue estava lotado, por sorte havia uma senhora que alugava quartos e conseguimos alugar 3 quartos na casa dela, havia um rapaz italiano que ouviu a conversa e seguiu junto com a gente.
A cidade é muito bonita e é o ponto mais ocidental da Europa, o nome é Finisterre que significa "Fim da Terra", quando pensavam que o Planeta Terra era chato, era ali que Ele acabava.
CAMINHO DE SANTIAGOFarol de Finisterre
Depois de deixar as coisas na "pousada", procuramos um supermercado, demos uma volta na praia e em seguida andamos em direção ao Farol de Finisterre onde a vista é linda. É um costão muito alto onde você só escuta a força das ondas quebrando nas pedras la em baixo.
CAMINHO DE SANTIAGOFinisterre
No final da tarde, mas precisamente as 22:00hrs, você ve o maravilhoso por do Sol no mar. Nessa região o Sol se põe tarde.
CAMINHO DE SANTIAGOPor do Sol em Finisterre
Depois voltamos pra "pousada" pois no dia seguinte nosso ônibus voltava cedo pra Santiago.

Retorno 03/06/2007
Finisterre -> Santiago de Compostela -> La Coruña -> Madri

Acordamos, pegamos o ônibus, e chegamos na Catedral de Santiago bem na hora da missa do meio-dia. Reencontramos os italianos, o Renato, a Bigitte, o Carlos e a Massayo, outros tantos peregrinos que não conversamos mas que vimos várias vezes nos albergues. Eram todos cumprimentando-se e parabenizando-se por ter chegado. Sentamos em um bar para beber e comemorar. O garçom e a atendente do bar eram brasileiros.
CAMINHO DE SANTIAGOConfraternização de Peregrinos
Depois me despedi dos meus grandes amigos, Renato e Edithe com a certeza e promessa de nos rever um dia no Brasil.
CAMINHO DE SANTIAGODespedida do Renato e da Edithe
Peguei minha mochila, minha espada e andei até a estação de trem. Quando cheguei la descobri que todos os trens para Madri estavam lotados. Então fui até a rodoviária, que é do outro lado da cidade, e a mochila com peso em dobro, pois estava com tudo oque comprei. Cheguei na rodoviária e o atendente falou que não tinha mais vaga pra Madri mas tinha pra La Coruña e de la pra Madri, então comprei essas duas passagens e fui até La Coruña e la troquei de ônibus, peguei um pra Madri que levava até o Aeroporto.

Retorno 04/06/2007
Madri -> Guarulhos

Adiantei minha passagem sem problemas na Ibéria, mas me cobraram uma taxa de 100 euros, despachei minha espada, esperei o avião e embarquei. Novamente um avião apertado da Ibéria e agora com 3 crianças que brincavam atrás de mim nos bancos durante as 11 horas de viagem.
AviaumVoo
Cheguei em Guarulhos as 18:20hrs e ja fui no balcão da GOL adiantar minha passagem, consegui adiantar pra 20:30, paguei uma taxa de 100 reais. Aguardei uma hora e fui fazer o check-in. Pra minha surpresa o funcionário da Gol falou que a moça não tinha adiantado a passagem, mostrei pra ele o recibo de pagamento da taxa, que tinha data e hora (de uma hora atrás) e ele foi verificar. Após 10 minutos voltou e disse que a moça não tinha confirmado, mas que agora ele tinha feito, só tinha um problema, o voo das 20:30 estava lotado, somente as 23:30. Reclamei, falei que chegaria em Florianópolis depois da meia noite e não teria como eu ir pra Blumenau, então ele escreveu no sistema que a Gol pagaria um taxi pra mim. Fiquei feliz e no aguardo.
Em plena crise aérea, o voo saiu somente as 1:30.

Retorno 05/06/2007
Guarulhos -> Florianópolis -> Blumenau

Cheguei em Florianópolis 2:30, quando fui até o balcão da Gol reclamar o meu taxi, pra minha infelicidade, acaba a energia no aeroporto e com isso os micros desligam. Tive que explicar tudo pro atendente da Gol e ele fez uma cara de quem não acreditava, mandei ele ligar pra São Paulo ja que ali estava sem sistema, ai ele pagou o taxi e cheguei em Blumenau 4:30.
BlumenauEntrada de Blumenau
Toquei a campainha de casa, o meu cachorro pulava de alegria, mais de um mês sem me ver, e em casa ninguém vinha abrir o portão. Apertei a campainha durante um tempo até que perceberam que não era um bebado mau vestido e sim apenas um peregrino que voltava pra casa :)

“Percorrer muitas estradas, voltar para casa e
olhar tudo como se fosse pela primeira vez”
Thomas S. Elliot


Texto e fotos: Carlos Eduardo Hoepers
cadsite@hoepers.com.br
Blumenau - Santa Catarina

História Etapas
Carlos Eduardo Hoepers - 2007
cadsite@hoepers.com.br
Blumenau - Santa Catarina